segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Cachaça de Alambique

Senti o cheiro de cachaça curtida...fui transportado para minha infância...

Sei que é engraçado ou triste - politicamente incorreto se analisado sobre os padrões sociais - dizer que cachaça de alambique lembra minha infância, mas é verdade. Esse é um daqueles causos que ouvi quando era criança no interior - quase esquecido - de Minas Gerais. Eu me aconchegava perto do fogão de lenha e ficava ali pescando a conversa dos adultos. Se não me falha a memória aconteceu mais ou menos desse jeito:

Eram três moços. Rostos ossudos e a pele queimada pelo sol que castigava aquela terra. Barba por fazer. Dois usavam um chapéu de couro cru. O terceiro estava mais afastado. Era conhecido como "Primo". Era paulista e tinha seus vinte e poucos anos. Estava calado e desalinhado.

Sentaram na varanda e começaram a prosear:

- Zé! Ocê num sabe o que aconteceu na Folia de Reis lá na casa do Mané Filício.

- Uai, então conta sô.

- O Primo aqui ó! Tomo a marvada e comeu tudin os biscoito dos folião.

- Ué primo! Deu conta não? Por isso ocê tá jururu?

Primo respondeu com um som gutural (hoje sei que foi devido a ressaca)

- Viro só um copin de esmalte e descambo. Perdeu as istribera. Incosto o bigo na bacia de biscoito e num teve Cristo que tiro ele dali até acaba tudo.

- Ôua Primo! Desse jeito ocê faz a gente passar vergonha com força. Dá vexame não sô! Nem parece que é de cidade grande. Ocê tinha dito que tava acostumado com bebida?
 
Primo já estava deitado  na mureta em estado quase que vegetativo. Pediu para apagarem a luz. Os dois caíram na risada. Ri junto. Não entendi o que se passava, mas a felicidade era tanta que não me contive.

Fui tomado por um desejo de pegar piaba. Fui até o riacho. Eu e o Chorão (o cachorro bobo que sempre me acompanhava nas minhas molequices).  Infelizmente não ouvi o desfecho da história, mas sei que pelo andar da prosa os dois matutos mangaram muito com a cara do paulista.

Minha única preocupação era brincar tamanho do dia. 

Que saudade da minha infância. Que saudade da Folia de Reis. Que saudade do Chorão...

Gostaria de dizer algo poético para apaziguar toda essa nostalgia insólita. Mas a única frase que me vem a cabeça no momento é:

- Desce umazinha, mas uma da boa!

* Para os conservadores não estou fazendo apologia ao consumo irresponsável  de álcool. Eu nem bebo.

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