sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Samuel

     Deveria causar algum tipo de comoção, mas por mais que tente a única reação que me vem a memória é um tipo de humor escarninho, daqueles de mau gosto, resumindo seria cômico se não fosse trágico.

    Samuel, era o seu nome, uma criança saudável com seus 4 ou 5 anos anos, tinha os dentes de leite branquinhos e o cabelo raspado. Usava uma camiseta regata de um desses desenhos que as pedagogas insistem em dizer que são violentos e que deixam as crianças hiperativas, usava um shorts verde e uma sandália. Esse era seu retrato.

    Assim que a porta do metro abriu ele foi arrastado pelos bracinhos franzinos como um boneco ou como uma sacola de feira, dessas que não temos cuidado ao manusear – por um momento achei que ele fosse desmontar - mas ele se manteve ali! Era forte! Foi arremessado contra o banco pela mãe – na verdade não sei se era a mãe presumo que seja – e ali ficou com os olhos arregalados e com cara de choro.

    O menino não emitia nenhum ruído, mas sua mãe insistia em lhe passar corretivos tanto verbais quanto físicos. Até mesmo quando um passageiro acidentalmente prensou a mão do garoto contra o banco a mãe atribuiu a culpa ao pobre diabo. Ele timidamente pediu um brinquedo que estava guardado na bolsa e por um momento achei que fosse vê-lo sorrir, era uma espécie de peão que ao ser ligado acendia luzes e girava, mas para o infortúnio daquele guri o brinquedo não funcionava. A ira da mulher ficou mais clara e com um semblante duro e frio ela gritou com o coitado:

    - Samuel cabeção! Você já quebrou o brinquedo? É por isso que você não ganha nada!

     E a cada palavra proferida um tapa era desferido na cabeça da criança. E a cada tapa eu ficava mais angustiado. Desci na estação seguinte, mas não antes de dar uma última olhada naquele projeto de gente e fico imaginando o momento que a mãe descobriu que estava grávida até a concepção do pequeno na maternidade. Listas e listas com as melhores opções para o nome, e com a felicidade de ter um novo membro na família e com a expectativa de vê-lo crescer e se tornar um bom homem, mas por alguma razão aquela mulher  parecia ter um prazer-feio como se sua maior felicidade fosse ouvir o choramingado quase inaudível. 

    Estranho é imaginar que a felicidade pode se resumir a tortura. Estranho pensar é que mesmo vendo e não concordando eu não tenha tomado qualquer providência enérgica, talvez por covardia, medo ou talvez pelo fato de ser apenas um transeunte incógnito, um observador discreto ou indiscreto dependendo do ponto de vista.

    Um um olhar tão triste, tão amargurado desses que a gente só vê depois de certas decepções da vida. Ele era tão pequeno, tão franzino, esse era o Samuel.

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