De esperar pelos acontecimentos casuais? Cansou. Naquela noite quase se perdeu por não reconhecer aquele reflexo no espelho. Olhos perdidos, falta de ar, sorriso quebrado, movimentos involuntários.
Composto. Sabe? Involuntariamente o sangue pesa mais que a água. Como é possível? Mesmo corpo e dois seres que se anulam e se completam. Existem arestas, falhas, defeitos que precisam ser corrigidos, mas não agora. É melhor ficar calado.
E, muito embora saiba que a forma usual da amargura é a mesma que leva à felicidade, prefere ignorar e sentar-se só. Tudo é passageiro ou efêmero. Tanto faz. O gosto já não é mais o mesmo e as cores estão desbotadas. Tendem ao cinza decadente.
A realidade que o assombra está mais presente. Gente que vai e vem. Gente que anda de cabeça baixa e não tem perspectiva, que os olhos não brilham. Gente que pensa em dinheiro, sexo, cachaça, programa sensacionalista, sucesso e dar risada. Gente que cruza o mesmo caminho todos os dias e só percebe que não anda mais do mesmo jeito quando já foi longe demais. Gente demais.
Deitou na grama e repousou a cabeça. Tapou os olhos, mas deixou uma fresta só pra ver os primeiros raios de sol. Suspirou. Sentiu novamente falta de ar e uma aperto no peito. Queria conversar, mas não responderam. Ficou ali e dormiu.
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